Anitta e o que ela poderia representar

Vai, Malandra; Prepara, Maluma, bunda, favela, cirurgia plástica… Uma coisa é fato: Anitta está entre os tópicos mais falados no país em 2017, com certeza! Mas afinal, o que ela representa, o que ela não representa e o que se espera que ela represente?

Larissa de Macedo Machado nasceu em 1993, no Rio de Janeiro, e começou a cantar aos 8 anos, na igreja do bairro Honório Gurgel. Fez técnico em administração e aprendeu direitinho a tarefa. Hoje, apesar da equipe monstra que compõe os bastidores do trabalho, ela gerencia de perto cada coisa e dá uma lição de marketing de cair o queixo. Sabe exatamente quem é o público que quer atingir e faz o que precisa para conseguir.

Foi em 2013 que assinou contrato com a Warner e, em seguida, “Show das Poderosas” virou hit nacional – cantada mentalmente até por quem torcia o nariz, confesse!

Ela queria mais. Queria ser a Rihanna, a Beyoncé ou qualquer outra estrela global. Afinou o nariz, diminuiu os peitos, deu um toque no abdômen. Foi atrás de parcerias estratégicas como Iggy Azalea e Maluma – que acabou decepcionando na hora de mostrar o trabalho ao mundo, mas já tinha histórico de c&zão. Lembro de uma discussão dela com a Pitty no programa Altas Horas e um retrato nato do machismo que circunda homens e mulheres brasileiros. Relembre aí:

O que a galera não percebeu nessa discussão é que a Anitta, apesar da moça inteligente e focada que é, apenas representa com bastante força o pensamento geral: o machismo velado e o sonho americano. Tanto é que a própria Pitty a defendeu:

Afinal, o que a mulher que emplacou duas faixas entre as 50 mais ouvidas no mundo pelo Spotify neste ano representa? O sonho. Ela alcançou – dadas as particularidades daquilo que cada um almeja – o sucesso dentro do que esperava. Ficou famosa com música autoral, faz dinheiro cantando e, independente das opiniões, tomou algum tipo de posicionamento que hoje atinge tanto a massa como divide a galera cult/independente/alternativa. E aí tanto faz o estilo que você mais gosta ou seu entendimento de qualidade musical, mas fato é que ela alcançou o sucesso.

Entenda que sucesso na música não diz respeito apenas ao número de pessoas atingido – isso é fama. Sucesso na música é ganhar dinheiro com ela e estar satisfeito dentro do que se propõe a fazer. No caso, Anitta tem sucesso e fama.

De uma maneira controversa e não convencional, ela também representa a liberdade da mulher – aquela que pode mostrar a bunda, a celulite, pegar quem quiser e dançar até o chão se tiver vontade. E, de fato, está cag@#$do pra quem chega cheio de falso moralismo dizendo que isso não está certo.

Quando ela cria um clipe no morro e mostrando como as pessoas se comportam ali de maneira orgânica, sem forçar a barra, ela gera desconforto. Mas, por quê? O paulistano pode falar da Ipiranga com a São João e a “beleza de suas meninas”. O carioca pode falar do “doce balanço a caminho do mar”. E Anitta pode – e deve – falar das meninas que tomam sol na laje com fita adesiva no corpo. A pergunta é: por que não? Meu bem, isso faz parte do seu mundo, quer você aceite ou não, quer esteja ao alcance dos seus olhos ou não. Vi um clipe das meninas do Fifth Harmony se esfregando nuns caras sem camisa em um local em construção e não teve esse barulho todo.

O que ela não representa? Anitta não compra briga. Nesse ponto, ela é a libriana do mainstream. Ela não bate no peito e diz “sou negra e vou lutar pela causa”. Ela não bate no peito e diz “sou favelada e vou até o fim”. Pelo contrário! A conduta dela desde o começo até agora mostra que a artista foi negando algumas coisas das próprias raízes. Cara, ela é um ser humano que começou cantar MUITO cedo e só queria ser igual às pessoas que via na televisão. Simples assim, sem grandes racionalizações. Ela só foi fazendo.

Claro é que existe uma expectativa de que Anitta, como artista reconhecida em grandes mídias, faça algo que apoie as lutas relacionadas àquilo que ela deveria representar. Ao invés disso, ela simplesmente insere elementos do mundo que conhece em seu trabalho e deixa rolar. Um mundo ideal é aquele onde a gente olhe para a outra pessoa e não tenha como primeiro fator de descrição a cor, a classe ou o gênero. Vocês já viram esse vídeo FANTÁSTICO (e com uma crítica incrível nas entrelinhas) de quando o mundo descobre que a Beyoncé é negra?

Mas não é assim que funciona. O mundo olha sim sua cor, gênero e classe e, quando você escolhe fingir que não é aquilo que nasceu, está maquiando uma situação e criando um problema: a não aceitação começa em você. Sim! Gostaria muito que a Anitta batesse no peito para defender aquilo que ela representa. Mas isso é só o que eu espero dela. Não é porque criei essa expectativa que desmereço o bom trabalho que ela vem fazendo dentro do marketing. Ela precisa, de fato, tomar alguns cuidados como não trabalhar com um diretor acusado de assédio ou usar determinadas lutas somente quando convém. Mas, no final, vejo um saldo positivo daquilo que se propôs ao mundo do entretenimento – entenda, do entretenimento.

O grande lance é: enquanto ficamos olhando o que Anitta está ou não fazendo, deixamos de dar espaço a artistas que têm uma representatividade fudida e não o mesmo espaço dela. Vamos falar mais deles? Bora tocar o som no seu radinho e fazer textão sobre esses caras? Tá na mão a playlist, pra ajudar a introdução! Só clicar aqui. 

Texto: Carol Tavares
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