2020 existiu?

Desculpem o monotema, mas 2020 tem sido pandemia e bebê. E lives, muitas lives.

Vocês não têm ideia. Estamos tentando. Lucas e eu fazemos nosso melhor para criar uma cidadã consciente, feliz e que viva bem na comunidade. E, cada vez mais, aquela história de que crianças devem ser criadas por uma aldeia inteira faz mais e mais sentido. Por que substituíram uma cultura tão sábia como a indígena por esse capitalismo egoísta e patriarcal branco? Existe alguma maneira de adaptar este cenário?

Meu corpo dói. Minhas articulações parecem de uma senhora já bem velhinha. Tenho uma fila de textos não escritos me esperando para serem publicados em diferentes veículos. Tenho uma lista de coisas a fazer que vão sendo empurradas para o dia seguinte. Tenho nove dias para terminar um mestrado. Mas, nas últimas noites, eram 5h e eu estava dizendo pra minha filha que ela precisava dormir. Ela está agitada e faz um esforço danado pra dormir, mesmo sendo tão bebê. Mas ela não estava conseguindo. Eu tentei, Lucas tentou, ela tentou sozinha. A coisa só desenrolou quando regredimos ao primeiro mês e ela dormiu em cima do meu peito. O resultado é que tenho dormido semi-sentada por horas nas últimas noites – ou de ladinho, com uma teta de fora, onde ela fica vindo e voltando até descansar. O mundo deve estar muito estimulante para ela e isso pode estar refletindo nas noites. Além dos dentes. Eu entendo, acolho, dou o meu melhor.

Tem sido assim. Madalena é um bebê do confinamento. Nasceu, fez uma sessão de Reiki comigo, passeou por pontos turísticos e, alguns dias depois, declarou-se pandemia. Nos fechamos em casa – ela, Lucas, minha mãe e eu. Em 14 de março, o presidente Pedro Sánchez disse que era lock down. Coisa levada realmente a sério aqui: ninguém sai sem uma justificativa oficial – a fiscalização pega e multa. Foram dois meses de Madalena e eu sem cruzar a porta da frente. Lucas e minha mãe se revezavam para descer o lixo e fazer mercado. Depois, só Lucas. Eis que desci pra levar a criança pra tomar vacina, duas quadras de casa. Foi desesperador! Eu não sabia pra que lado ir, meu coração acelerava e eu achava que estava machucando a nena no sling (ela claramente não se importava e dormia angelicalmente). Voltei pra casa. Outro mês inteiro sem cruzar a porta da frente. 

O desconfinamento começou e fui me adaptando aos poucos. Ainda muito perdida e com um medo danado de sair na rua. Até hoje, tenho uma certa fobia de por o pé pra fora, mesmo dentro das restrições – é sempre muito cansativo e angustiante nos primeiros minutos. Isso deve refletir de alguma maneira no bebê. Ela é mais grudadinha e eu procuro entender a demanda dela de um lugar amoroso. Então, fazemos todo esse esforço, sem medo. Mas com muito cansaço.

A verdade é que tem dado resultado. É uma criança feliz – claramente! Inclusive, é algo que as pessoas comentam quando a conhecem. Ela é saudável também e tem desenvolvido suas percepções cognitivas de uma maneira muito rápida e orgânica. Nunca ensinei diretamente, mas ela aprendeu a oferecer comida quando está se alimentando, a bater palmas e a dançar. Você coloca uma musiquinha simples e lá está ela balançando o bumbum e chacoalhando as perninhas. Ela também faz um movimento com a mão que imita o pai tocando violão. Tem muita fofura no olhar, sorri pra tudo, se joga pra todos. Ela me abraça. Vejo claramente os resultados. Mas isso não diminui o cansaço.

Foi um ano muito intenso e a gente não sabe pra onde ele vai. Mas a gente sabe que, dentro de um contexto onde acabou ficando cada um por si em seu próprio ninho, a gente tem se desdobrado para fazer o melhor. Eu só vou saber se foi o melhor quando ela for adolescente e começar a jogar coisas aleatórias na minha cara. Mas, por enquanto, parece que está tudo bem.

Eu sempre desejei um ano sabático – ou semi sabático, já que seguimos trabalhando – mas nunca pensei que silenciar e ir ao encontro de si mesma fosse a coisa tão absurdamente devastadora e encantadora que tem sido. Um paradoxo do tempo, do espaço e da existência. Das lições que ficam de 2020, tiro as mesmas da maternidade: não controlamos nada – ou nada além daquilo que fazemos com a falta de controle. Seguimos! Espero que vacinados e prontos para reconstruir o planeta que a gente vem destruindo desde o início de muitos tempos. 

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