ENTREVISTA: Leo Middea, o filho perdido de Gilberto Gil com Caê

 

É sempre complicado falar de um trabalho que você respirou e respira. “Um toque na liberdade já te faz voar” é um dos versos mais importantes na trajetória de Leo Middea. Foi ali, no disco “Dois”, que ele percebeu o potencial de sua música e o caminho que ainda precisava trilhar. O cantor passou três meses na Argentina, sem saber como ia pagar as contas no dia seguinte – mas sempre surgia um show que bancava mais um dia. “Só por hoje, vou viver de música”. Ainda bem.

Depois, a ponte Rio-São Paulo acabou se tornando mais comum e intensa do que ele imaginava. Das muitas experiências, saiu o disco de quem sabe que o mundo é seu. “A Dança Do Mundo” trouxe uma maturidade musical inigualável em relação ao Leo do passado. Ficou claro o quanto ele estava se encontrando, soltando a voz e tomando conta do poder pessoal. Foram dez dias em silêncio na Índia que antecederam a estreia do novo trabalho, exatamente no mesmo dia do golpe de 2016. Fato é que a data limitou algumas ações, mas a garra era maior e o pequeno grande labrador desajeitado de cabelos a la Caê ganhou. Ganhou mesmo – espaço, mídia, público.

Um dia, sem pestanejar, ele mandou uma mensagem: “vou morar em Portugal”. E foi. Foi dançar pelo mundo. Foi lá que ele fechou os olhos de fora. Percebeu quem é de verdade e seguiu. Hoje, faz shows pelo país, pela Espanha e há rumores que a Itália não perde por esperar. Vôa, Leo!

Entre comer e dormir, o que importa mais?
Comer, de fato. Sou um bom taurino.

E entre comer, dormir e tocar?
Comer. Brincadeira rs. Dentre essas três, com certeza tocar é o que mais me alimenta.

Quantas músicas você compõe por semana?
Depende de diversos fatores, mas normalmente um média geral de três composições por semana. Isso não quer dizer que eu goste de todas, mas eu gosto de pegar o violão e criar uma canção, seja ela boa ao meu agrado ou não.

O que Portugal te trouxe?
Tudo o que eu não tinha. Isso signifca desde a questão mais emocional, como uma força para lidar com todas as situações que viver no estrangeiro sem conhecer uma pessoa nos proporciona, quanto questões mais práticas como aprender a cozinhar e ser realmente independente.

Quando você começou a usar sapatos fechados?
Exatamente neste frio lusitano. Tive que comprar sapatos, pois eu não tinha o hábito de usar e os que eu tinha já estavam sem condições de ser usados.

O que a música representa para o Leo que ninguém conhece?
Vida. Ela para mim é um ato de amor, é uma soma de duas coisas que mais gosto. Ouvir/tocar música e viajar. Gosto da sensação de não pertencer a nenhum lado e gosto da sensação de poder contar para os outros – em forma de arte – fotografias da minha vida ou o que eu interpreto de uma situação cotidiana.

O que você ainda tem da criança encapetada que foi um dia?
Ansiedade e teimosia.

Quando você ficou tão calmo?
Ficar tão calmo é relativo, pois por dentro pareço que vou explodir rs. Na verdade, em 2012, conheci duas pessoas que me apresentaram um mestre espiritual e, a partir desse mestre, conheci a fundo o poder da yoga e meditação. Desde então, a partir dessas duas coisas eu consigo lidar melhor com tudo a minha volta. Sendo assim, eu diria que a partir de 2012 eu fiquei “mais calmo”. rs

O que a Índia trouxe para sua música?
Poder expressar também o que se passa dentro de mim e das interpretações à minha volta. Antes, eu tinha mais facilidade em dizer só sobre uma pessoa específica, com quem eu tive alguma espécie de relação, ou não. Hoje, a partir de toda prática e vivência que os conhecimentos da Índia me permitiram, o autoconhecimento virou parte da minha rotina e consigo navegar melhor dentro de mim, escrevendo não só sobre os amores, mas o que eu sou e vejo além de uma relação.

São Paulo e Rio de Janeiro. Como essas cidades construíram e desconstruíram sua vida musical?
O Rio é minha cidade natal, foi onde construi a base das minhas canções, foi onde aprendi a tocar violão e contar para as pessoas sobre os meus primeiros versos. Já São Paulo… Parece que eu tinha entrado já dentro do jogo, conheci compositores/músicos/cantores maravilhosos(sas) e, com certeza, cresci junto com essas pessoas. Conhecer a nova geração da galera da nova MPB que estava sendo moldada em São Paulo me deu uma visão mais ampla sobre o ato de fazer música.

Quem era o Leo apaixonado de “Dois”?
Uma pessoa cheia de sonhos.

Quem era o Leo expansivo de “A Dança Do Mundo”?
Uma pessoa cheia de intuição.

Qual o próximo Leo que a gente pode esperar?
Uma pessoa cheia de amor.

Qual melhor show que você já fez?
Pergunta difícil essa. Eu tenho alguns nos meus favoritos, mas o mais recente que eu fiz foi um dos mais especiais. Fiz em Lisboa, em uma casa chamada Bartô. Cabem 85 pessoas e estavam cerca de 200 (30 pessoas não puderam entrar). A sensação que aconteceu naquele noite foi inexplicável e aquele show está reverberando dentro de mim até hoje.

Como é tocar para duas pessoas?
Tocar para duas pessoas, na época, foi uma sensação boa. Isso foi em São Paulo, na primeira vez que fui a cidade. Não me importava a quantidade naquele momento e sim eu ter ido para uma cidade diferente da minha e ter duas pessoas cantando as músicas. Vi minha música sair da minha cidade e ir para uma outra, foi uma clara visão de transição.

Como é tocar para casa cheia, deixando gente pra fora?
É como se fosse uma declaração do universo dizendo que é possível viver do que eu amo.

Café ou vinho?
Café e vinho.

Acelerar ou desacelerar?
Acelerar quando tiver desacelerado e desacelerar quando tiver demasiado acelerado.

Saber respirar. Que diferenças isso fez na sua vida?
Conhecer como o corpo reage a cada emoção e a partir daí mudar o quadro ou só deixar fluir.

Queremos música nova lançada. Vai rolar? Quando?
Já tenho um terceiro disco pronto em questão de composições, mas o processo de gravação e etc… Eu não sei quando seria o melhor momento para tal coisa. Por enquanto quero que “A Dança do Mundo” chegue para mais pessoas e estarei me dedicando neste ano de 2018 para isso. Quem sabe em 2019 seria o melhor momento?

 

 

 

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