Quando a ansiedade chegar, acolha.

É muito clara a maneira como a ansiedade atingiu meu corpo a curto e médio prazos. Eu engordei bastante na época (não tem problema algum ser gorda, só percebi que foi uma alteração grande em pouco tempo). E não porque comia demais – pelo contrário! Às vezes, a dor de estômago e os enjoos não me permitiam comer tanto quanto eu gostaria. Acontece que os processos ansiosos liberam cortisol. E ele incha.

Tem também o fato de consumir mais álcool, já que a sobriedade exigia encarar o mundo de frente e a realidade não era legal. Li que a ansiedade baixa o sistema imunológico, deixando a pessoa mais propícia a infecções, além de afetar o sistema respiratório. Não à toa, tive pneumonia e, após passar por determinados eventos, precisei começar a carregar comigo uma bombinha pra segurar a asma.

Desenvolvi dois pólipos no endométrio e um mioma uterino – todos benignos e com tratamento. Porém, também lendo sobre somatização, esse tipo de questão pode se desenvolver quando você tem dificuldades em mostrar quem você é. Quando li isso… E os psicólogos e suas linhas diferentes me corrijam se eu estiver apenas dando uma significância pra situação… Mas foi quando eu li isso que parei para pensar o que eu fiz esse tempo todo. Quanto tempo me escondi, abaixei a cabeça e deixei todos os sapos engolidos virarem a tal da ansiedade.

E o que ela faz com a gente muitas vezes pode ser confundido com frescura. Entenda: eu era a criança que ia com febre pro colégio, porque não falava que estava passando mal. Fiz minha mãe me levar com caxumba, na quarta série, pra professora me dizer que, caso eu ficasse na sala de aula, ia transmitir a doença para os amiguinhos. Foi aí que resolvi que tudo bem ir embora.

Não, nunca foi frescura. As crises de choro durante o expediente, o isolamento excessivo, o ataque de desespero quando o telefone tocava, os socos na parede, as garrafas jogadas no terreno vizinho, dormir até o mais tarde possível para não ter que encarar as pessoas… Nada disso era frescura. E tudo isso era velado. Foi assim durante alguns anos. Porque também existe culpa. Eu me sentia culpada em ter raiva dos fatores externos que me faziam sentir tudo isso e dos internos que não permitiam me posicionar em relação a isso. Olhar pra dentro da gente é um dos processos mais doloridos que podemos provar. Porque tem sombra, tem muita sombra. Aceitar a sombra e conviver com ela é uma reconstrução de tudo que você acreditou que era até então.

“Toma meu corpo, meus pensamentos leva” – é um verso lindo da Alice Caymmi, de uma bela canção de amor. Mas eu poderia estar cantando para a ansiedade. Era simples assim. Tive momentos de travar completamente, a ponto de só conseguir tomar banho. Eu lembro daquele dia. Ficava horas olhando para o computador e pensava: “preciso tomar um banho”. Mas eu lembrava que já tinha tomado e pensava: “não! Preciso terminar isso aqui”. Mas não funcionava. Passei um dia inteiro nesse ciclo sem fim.

O que me salvou? Terapia, Kriya (processos respiratórios com meditação e yoga), amor-próprio e apoio de quem eu amo. Curou completamente? Não. Ainda há resquícios que, em momentos de maior vulnerabilidade, resolvem vir à tona. Mas, hoje, eu sei detectar quando isso está acontecendo, posso acolher a mim mesma e entender meus limites. E não tenho mais medo de compartilhar a situação com as pessoas e pedir ajuda. Passa logo. Porque agora eu sei que não é maior que eu.

Se você sente algo parecido, apenas saiba que não está sozinhx. E se você não sente, entenda que não é frescura. É algo muito pesado para quem passa e que atrapalha todo o resto. Não julgue. Aliás, não julgue qualquer pessoa, nunca, por qualquer razão. Você não tem ideia do vulcão que é por dentro. Se puder, dê um abraço. Isso pode realmente fazer a diferença.

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