Se você me vir pelada, está tudo bem

Eu tenho uma janela. E ela fica aberta o tempo inteiro – dia, noite, chuva, sol. Não tenho mais medo. Durante muito tempo, minhas janelas ficavam fechadas. Havia medo de bicho, do tempo ruim, de um ladrão. Durante boa parte da minha vida, mantinha ainda uma luz do corredor acesa, pois os fantasmas também pareciam apresentar risco.

Agora, nada disso se faz necessário. Todas as luzes ficam apagadas e, lindo que é, o fato de a janela ficar o tempo inteiro aberta faz com que meu espaço tenha sempre a luz ideal para seguir com todas as atividades – do trabalho diário ao sono. E eu acordo com o sol despertando aos poucos, liberando cada um dos hormônios do meu cérebro de maneira gradativa.

Manter a janela aberta tem seus riscos. Eu me exponho. Exponho meu corpo e alma a quem quer que passe, a quem quer que fique à espreita por trás de sua janela fechada no apartamento da frente. Mas existe liberdade nisso. Eu não tenho mais medo de mostrar as vezes que estou nua, as vezes que estou rindo alto ou chorando em silêncio. Eu não tenho mais medo, porque estou dentro da minha casa e só olha quem quer. Não tenho mais medo de mostrar. Estou segura aqui. E o que o outro faz com o que vê não é problema meu.

Podem entrar pernilongos também. E coça. Incomoda. Muitas vezes, eles vêm e vão sem que eu os veja, apenas sinta o resultado da fome por sangue que eles têm. Mas eu também não ligo mais. Isso passa. E eles nunca ficam. E depois morrem de barriga cheia com aquilo que nunca os pertenceu.

Os fantasmas? Quando comecei a abrir as janelas, percebi que eles nunca puderam me fazer mal algum. Eu aceitei cada um dos fantasmas que andavam comigo. Entendi que eram muito menores do que eu os via com as cortinas cerradas fazendo sombra na luz do corredor. Os fantasmas nada mais eram do que pedidos de socorro. Eles gritavam na minha orelha o tempo inteiro: “abra sua janela! Eu preciso sair”. Mas eu não os ouvia. Eu me assustava e escondia a cabeça embaixo do cobertor. Então, fingia estar dormindo até que isso fosse real. Fazia-me invisível, outro fantasma – de carne e osso.

E, até determinado momento, era real. Eu ficava ali, escondida. Mas não incomodava ninguém. Mesmo assim, vez ou outra o vizinho se pendurava na minha janela fechada para tentar ver o que tinha lá dentro. E eu nunca gritava. Eu me escondia – de novo – de medo – de novo.  Agora, que a janela está aberta, ninguém mais se pendura nela. E muita gente se incomoda pelo simples fato de eu não ter medo dos fantasmas, não ter vergonha de me por nua no mundo.

A nudez só é pecaminosa na cabeça de quem a deseja. O fantasma só é perigoso no coração de quem não o aceita. O mundo só se torna hostil para quem não percebe como os mosquitos – por mais inconvenientes que pareçam – são apenas pequenos seres procurando comida. Dê amor.

Abra suas janelas.

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