Sem resistência, nem banho quente

A romantização atrapalha. Frustra. Porque você cria expectativas inacessíveis e, obviamente, elas não acontecem. Eu mudei de país. Estou morando em Barcelona e não tenho do que reclamar: vivo com o cara que eu amo e vice versa, me sinto cada vez melhor, tenho trabalhos incríveis, passeio, danço, faço parte de grupos de amigos que nem imaginei encontrar por aqui. Essa parte todo mundo sabe. Está lá no Instagram, no Facebook e nas conversas por WhatsApp.

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Mas hoje é sexta-feira à noite, em uma das cidades que mais tem coisas a fazer do mundo, e o Lucas acabou de sair para trabalhar – o turno dele nesta semana vai das 23h às 7h. Para que possamos ter momentos juntos e resolver coisas da casa, eu resolvi fazer o mesmo turno. Então, sigo trabalhando neste horário. Está frio, uns 8 graus. O apartamento que moramos, dividido com outro casal por conta da crise imobiliária do Airbnb, não tem calefação. Aliás, ligar um aparelho para deixar o ambiente mais quentinho pode derrubar a energia da casa inteira.

Meu quarto é uma graça, com varanda. Mas tem um buraco no chão. Sim! A madeira cedeu e o locatário pediu pra dar um jeito até que ele tivesse paciência de falar com a administração do prédio. Não comemos carne e, por isso, colocamos a tábua de madeira da cozinha no pé da cama, para tapar a cratera. Uma observação importante é que passamos um mês vivendo de favor em diferentes casas até conseguir que alguém aceitasse uma “pareja” alugando o tal do quarto.

O banho é quentinho, uma delícia! Até que acabe o gás, de bujão. Aí eu grito pela varanda fofa a um dos tiozinhos que passam batendo metal pela manhã e eles trazem o gás aqui pra cima. Mas mudaremos em breve para um lugar melhor – ainda dividindo, mas sem buraco no chão. Positive vibrations sempre. Tem ainda o fato de ser tudo em catalão, que obviamente não sei falar, incluindo o início de conversa com a maioria das pessoas. A língua local é uma arma de resistência do povo, que admiro cada vez mais por essa e outras.

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Ainda assim, reconheço meus privilégios. Eu estou trabalhando da cama e tenho quantas cervejas eu quiser tomar na geladeira. Isso porque o salário aqui tem valor real – o que você ganha de fato possibilita pagar as contas e guardar alguma coisa. Também me sinto extremamente segura, já que dificilmente alguém vai invadir o prédio pra assaltar ou coisa assim. O medo de furto fica por conta dos carteiristas, mas só no caso de você não estar acostumadx com ruas de São Paulo ou Rio de Janeiro.

Além disso, a casa não é o único espaço possível. As ruas são feitas para pessoas e não para carros. A qualquer hora que saia, você vai ver gente para todo lado, crianças e senhores passeando. Você vai ver trabalhadores tomando uma boa “canya” (chope) no almoço, pequenos grupos de “niños” correndo loucamente pelas praças e patinetes – MUITOS patinetes. E tem ainda a cerejinha: não importa o dia, sempre que saímos pela porta afora tem uma surpresa – uma feira de alguma coisa, uma festa de bairro, um festival, luzes… Não dá nem pra enumerar!

Uma amiga catalã me explicou a maior parte das tradições e contou ainda que, aqui, as crianças formam desde cedo pequenas comunidades de bairro, onde se tornam monitoras quando mais velhas. O senso de coletivo é muito forte! Fechar sua varanda pode ser mal visto, afinal, por que você não gostaria de fazer parte da comunidade? A própria língua dá a deixa: em catalão, quando alguém pergunta “como vai você?” e você não quer papo, o ideal é responder algo como: “normal”. Se você diz que está bem ou mal, o interlocutor vai perguntar “por quê?” – e ele quer MESMO saber.

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Por que estou dizendo tudo isso? Porque, hoje, me parece tão bobo e óbvio. Mas não era quando eu cresci no colégio e tinha pânico de ir até a esquina sozinha – literalmente. Precisei de ajuda de algumas pessoas para conseguir andar sozinha na rua ou em transporte público sem o coração disparar, a mão suar e o olho encher de água. Já saí correndo algumas vezes por causa de… ninguém. Também não foi bobo e óbvio quando entendi o raciocínio egoísta dessas eleições, que desprezaram totalmente o valor de troca e cuidado. Continua não sendo a cada notícia que vejo falando sobre extermínio indígena, sobre “rosa e azul” e assim segue. By the way: na Itália, fui expulsa de uma igreja por estar rezando com blusa de alcinha que mostrava minha tatuagem. Aqui, ninguém liga pras mulheres de peito de fora andando pela orla.

Porque ninguém manda no meu corpo. Porque a liberdade vem também com o apoio do Estado pelo mínimo de condições humanas não degradantes. Porque, aqui, mesmo estando ilegalmente você tem um documento chamado “empadronamiento”, que te coloca como responsabilidade do governo para cuidados básicos como a saúde. Porque pessoa em situação de rua tem um negócio chamado “sala de uso controlado de drogas”, que pratica a política de redução de danos na reabilitação de viciados. Porque aqui a legalização do aborto é entendida como questão de saúde pública. Porque aqui a resistência está estampada em cada janela com uma bandeira da Catalunya pendurada, nos broches de liberdade aos presos políticos e no discurso – que vai desde a mocinha da padaria até o senhor escalando a pedra mais alta da região.

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Romantização não leva ninguém a lugar algum. Resistência mantém você onde deveria estar – e vai doer, mas você vai poder falar a sua própria língua e revolucionar a história para seus filhos poderem andar de patinete. Feliz 2019!

 

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