Resenha: “A Política Sexual da Carne”, de Carol J. Adams

Você sabia que “Frankenstein” é uma alusão ao feminismo e ao vegetarianismo? A história já começa porque a autora da obra, Mary Shelley, é filha da feminista famosa pelo livro “Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher” (1792), Mary Wollstonecraft – trazendo na veia a temática feminista de maneira intensa. No livro do monstro criado pelo médico, ela mostra o corpo feminino obedecendo a uma sociedade patriarcal desde as maneiras mais literais de relação entre homem e mulher até metáforas como o retalhamento da Criatura. Criatura esta que, pasmem, não come carne. O “monstro”, afinal, é a criatura ou o criador?

Os mesmos traços que dividem a vaca em partes que recebem nomes como picanha ou filet mignon para se tornarem comestíveis – ao invés de serem tidas exatamente como aquilo que são: um cadáver – estão nas costuras do dito “monstro”, que só deseja ir para América do Sul com uma companheira, viver daquilo que a natureza oferece.

Essa relação tão rica e tão cheia de nuances que não cabem em um post, muito menos em dois parágrafos, implodiu minha cabeça. Já havia implodido quando li as biografias dessas mulheres. Mas a coisa ficou ainda mais intensa quando entrei no universo denso de “A Política Sexual da Carne”, escrito por Carol J. Adams.

O que é a Política Sexual da Carne?

Eu tinha mais ou menos 9 anos. Era domingo e seguíamos para mais um dos almoços semanais de família na casa de meus avós. Como de costume, meu avô trazia o frango vivo da granja, que seria morto e depenado. Cabeça arrancada, iria para a panela com uma gotinha de sangue no molho, para dar mais sabor. Minha prima e eu chegamos mais cedo e “fizemos amizade” com o frango, chamando de Kate. Tentamos convencer minha avó de criar a Kate, que estava enrolada a um jornal amarrado com corda, porém viva até então. Mas era o almoço da família e não houve outro destino para a pobre Kate: um puxão no pescoço o destroncou. Porém, ela era resistente e acabou machucando mais que o normal. Ficou pendurada um tempo, sangrando. Retirou-se as penas, limpou-se por dentro. Já na panela e com temperos, Kate passou a ser “franguinho cozido de domingo”. Mas não para mim. Ali, ela continuava sendo apenas a Kate. E meu almoço foi só macarrão.

Mulher é alimento para o desejo masculino. Mulher é quem alimenta, quem cozinha e nutre. Mulher é um objeto que serve. Animal é um corte servido no prato. Vaca, galinha, porco… Todos eles deixam de existir depois de um belo cozimento. Animal é objeto que alimenta. Mulher e animal são alimentos criados para servir: escolha seu tempero. Mulher e animal são a referência dessas ações, mas são ausentes enquanto criaturas com vida e vontades. Mulher e animal são um referente ausente – no prato, na cama, na política, no entorno social.

Quando a gente transforma o nome do animal em algo mais tragável, é quando o transformamos em referente ausente. É quando o ser vivente para de existir para dar lugar a servir. Quando você troca o nome de uma mulher violentada por “a vítima”, você tira o ser vivente dali e traz à tona um estereótipo mais aceitável nos jornais. Enquanto vítimas estereotipadas e determinadas, lamentamos e seguimos em frente.

A inércia, o seguir em frente “apesar de” e “mesmo que” acaba militando contra uma real mudança. Existem, por exemplo, lendas urbanas sobre as mulheres. Uma delas é que elas são biologicamente seres mais coletivos. Agora, pare e pense: como não apoiar umas às outras quando isso acaba se tornando uma medida de proteção e sobrevivência? Não somos mais coletivas que os homens, apenas precisamos mais desse sistema.

Um matadouro silencioso

Você conseguiria seguir enchendo seu prato com bife após observar o retalhamento animal direto de um matadouro? “A cultura patriarcal cerca de silêncio o retalhamento real”. Como isso é feito? É sutil. Pelas palavras. A escolha certa de palavras faz com que mulheres e vegetais sejam frágeis, vulneráveis e determinados a papéis específicos. O corpo? Torna-se um belo pedaço de picanha a ser consumido em um outdoor, em um filme, em uma foto, na rua – sem consentimento. Animal e mulher parecem não precisar dar autorização para serem retalhados dentro de uma sociedade que acredita estar no topo da cadeia alimentar – o que, de fato, não condiz com a realidade.

Quais tiranias engolimos diariamente, bem temperadas em nosso prato? É preciso ter força e poder para mudar as coisas. Mas, quando o senso comum aceita exceções, abre-se uma porta para muitas revisões sobre o que se pode ou não fazer. A conversa gira em círculos e se torna só mais um tema para a mesa do café. Não incomoda, não gera mudança. A pessoa que se posiciona vegetariana é questionada por comer bem. A mulher que se impõe é questionada por opinar. Voltamos aos estereótipos criados e aceitos pelo senso comum como verdadeiros. O que há em comum nos dois casos? Animal e mulher atuam como objeto para que os outros – aqueles que questionam qualquer movimento de resistência de ambos – possam se tornar o sujeito da história.

Mas, afinal, por que a gente precisa se justificar tanto para não querer matar um animal? Porque a gente precisa se justificar tanto para ter igualdade de gênero? Qual pergunta realmente deveria estar sendo feita em ambos os casos?

E, por fim, por que ter emoções envolvidas em suas lutas deveria tirar a legitimidade das mesmas? Afinal, prezar pelo bem comum e pela vida é algo ruim? Mas os mesmos que preferem ver uma mãe morrer na periferia a ter que legalizar a retirada de um feto ainda em formação são os que comem a carne sangrando tirada da churrasqueira sem questionar a relação entre ambos.

Um último tópico, mas não menos importante – nem de longe. Você já ouviu falar do assassino de gatos que viralizou na internet e acabou matando uma pessoa? Uma sociedade que relaciona sua força, virilidade e poder ao consumo de carne e, consequentemente, à morte do animal, é a mesma sociedade que baseia sua economia na escravidão e opressão. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. E muito cuidado com o que se ouve falar por aí. “Quem controla as histórias, controla a memória e o futuro.”

O livro ainda traz dados bastante interessantes que mostram que há aumento no consumo de carne quando está em voga uma política opressora no poder. Além disso, mostra que é possível alimentar praticamente o triplo de pessoas (com uma diferença de muitos milhões) quando se institui uma dieta vegetariana à população.

Boa leitura!

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